Cidadania para lobos – 09/01/2021 – Marilene Felinto

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Fantasias é na Cacau Center!

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A cena é repulsiva. O nome do deputado é Fernando Cury, de São Paulo, do partido político chamado de Cidadania (ironicamente, ao que tudo indica). Foi ele que, pública e notoriamente, com gravação em flagrante, ao vivo, pelas câmeras da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), acochou no balcão da mesa diretora da casa a deputada Isa Penna, do PSOL.

O abuso ocorreu no dia 16 de dezembro último. Fernando Cury chegou por trás de Isa Penna e passou a mão em seu corpo, como se tivesse direito a ele, apalpou a deputada na altura do seio dela, e depois chamou isso de “abraço”.

Minutos antes de praticar o ato, Cury cochichou no ouvido de um colega, como quem precisasse de cumplicidade, numa cena que remete à covardia de rapazes criados no espírito do “comedor” número um do grupo e que precisa provar isso à matilha a que pertence.

Mas o deputado não é nenhum rapaz. É um homem de cabelos brancos, afiado nos piores vícios do patriarcado machista brasileiro. Ele abordou Isa Penna, que conversava com o presidente da Casa, como um predador que tivesse direito natural a uma presa —o corpo da deputada.

A cena é repulsiva. Fernando Cury expressava ali a relação de soberania que um macho da sua estirpe (branco, supostamente autodenominado heterossexual e da burguesia neoliberal de direita) estabelece com o corpo de uma mulher —mulher esta que, embora na mesma posição de autoridade, não passa de um objeto para ele. Para se tocar em um objeto, afinal, não é preciso pedir autorização.

Por que o deputado Cury não apalpa um homem? Por que não desliza sua mão pela perna de outro deputado macho e vai escorregando até o órgão sexual do colega? Precisaria o deputado ter atração por homens —mas ainda que tivesse, não o faria. Por vergonha e covardia? Por respeito ao outro? Ou medo de levar um murro na cara?

A licenciosidade de Fernando Cury para com o corpo de Isa Penna, a boçalidade com que o homem envolveu seu braço em torno do corpo da deputada é a expressão da onipotência típica da discriminação de gênero.

A deputada Isa Penna disse em um programa de televisão que já tinha percebido, antes desse episódio, alguns dos lobos da Alesp tecendo comentários sobre seu corpo. Então, assim, vista como uma puta e disponível, Penna foi tratada por Cury como um corpo fora das normas domésticas e matrimoniais —um corpo intrometido no lugar social e político do macho.

A violência praticada por Fernando Cury contra o corpo da deputada tinha efeito de um aviso: colocar a mulher no seu devido lugar, ou seja, na mão dele, sob seu domínio, numa espécie de normalização insuportável do assédio.

Isa Penna registrou na ocasião um boletim de ocorrência por assédio sexual contra o deputado, apresentou uma denúncia formal por quebra de decoro e pede a cassação do mandato dele.

Entretanto, escândalo dos escândalos, em sua composição, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Alesp, que vai analisar o caso, tem apenas uma mulher entre seus nove representantes. Foi preciso o deputado Carlos Giannazi (PSOL) ceder sua vaga à deputada Erica Malunguinho (PSOL), para reforçar a presença feminina na comissão.

Não é de hoje esse comportamento de matilha no universo político brasileiro, herança de uma sociedade patriarcal-colonial, e modelo fundado na ideologia nazifascista de “imunização da comunidade” (como observa Paul Preciado) contra os corpos (de mulheres da Alesp) que ameaçam a soberania do grupo dominante (de homens machistas).

Do mesmo modo que, no nazismo, a comunidade ariana alemã quis se imunizar contra os corpos de ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência. Reside aí o perigo das “gestões imunológicas”, como alerta Preciado, elas que seguem legitimando as políticas neoliberais de controle de populações racializadas e migrantes mundo afora.

Isso, diz o filósofo Preciado, “tem a ver com a fantasia da soberania sexual masculina entendida como um direito inegociável de penetração, enquanto qualquer corpo penetrado sexualmente (homossexual, feminino, todas as formas de analidade) é percebido como desprovido de soberania”.

Ora, segundo a bióloga e filósofa Donna Haraway, homens e mulheres não são identidades, não são seres naturais, são ciborgues construídos a partir de tecnologias adequadas aos interesses biopolíticos e que podem, por esses mesmos instrumentos, ser reconstruídos. Basta querer, basta escolher, basta decidir se é natural uma sociedade baseada na violência e na dominação de um grupo sobre outro.

É urgente, portanto, que esse deputado Fernando Cury tenha seu mandato cassado. E que seu caso sirva de lição a outros predadores de plantão, prontos para dar o bote covarde na primeira chance que tiverem.


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